Renasce #4


Sei que já vem sendo hábito vir aqui desabafar convosco e eu espero que não se importem pois é-me essencial e espero de coração que vos ajude.
Pela foto muito provavelmente pensarão que venho escrever acerca do filme The Danish Girl, mas descansem que não é nada disso.
Escolhi a foto deste filme pelo simples facto de que mexeu comigo, tocou-me mesmo e eu que não me considero chorona, dei por mim num verdadeiro pranto em que quase inundava a sala. E não ficou por ali, durante as horas seguintes continuei no mesmo estado pois estava ali o filme que para mim definia na perfeição três das palavras com que mais me identifico: Aceitação! Luta! Liberdade!

Depois de ver este filme, de algumas atitudes e de umas quantas conversas achei que tudo me parecia encaixar-se na perfeição para dar vida a estas palavras que vos escrevo hoje.

Uma das coisas que mais me perguntam quando me contactam é “Como consegues?” Como conseguiste chegar aí?”.
Como já vos disse em textos anteriores nenhuma mudança acontece num estalar de dedos e não esperem que do nada um dia se levantem a amarem-se e aceitarem como são. Não, não lerão aqui que o tempo cura, que tudo passa. Pode curar, pode passar, mas exige muito trabalho nosso, acreditem.
Durante quantos anos lutei contra este corpo? Durante quantos anos tentei acalmar a dor da alma com as feridas físicas? Durante quantos anos tentei castigar este corpo quando mentalmente não o aceitava? Durante quanto tempo este corpo foi apenas a minha maior preocupação e desilusão? Quantas vezes fui apenas uma massa e reduzi a minha pessoa a isto?
Este caminho foi, é longo, árduo e exige todas as forças que muitas vezes nem sabemos ter, pois os nossos medos, as nossas dúvidas assombram-nos vezes sem conta.
Mas, existe uma palavra neste filme que define o primeiro passo que para mim foi essencial, a ACEITAÇÃO.
Foi quando aceitei que a minha pessoa era muito mais que um corpo gordo que percebi que gorda era apenas mais uma característica minha como é o ser alta, sorridente, simpática, faladora. Foi quando aceitei isto que me tornei dona de mim, forte e segura da pessoa que sou.
Foi quando aceitei quem era que deixei de me (des)construir através de comentários alheios e que fiz face a uma sociedade que nos quer dentro de padrões, usando as mais inúmeras justificações.
Foi quando me aceitei que ganhei forças suficientes para dar o passo atrás dos meus objetivos, sonhos. Foi também quando me senti preparada para enfrentar os meus medos. Passei a conhecer-me. Percebi que precisava (re)construir uma Ana que não se resumia mais a um corpo “feio, horrível, nojento”, percebi que precisava de ajuda e aceitei. Aceitei que o meu corpo não seria mais uma massa onde me castigaria nem depositaria todas as minhas frustrações. Percebi que o passado tinha de ser aceite e arrumado. E foi assim que percebi que o meu corpo estava a acompanhar a minha mudança. Também ele passou a ser aceite e a mudar sem castigos. Também ele passou a evoluir.

Muitas vezes ouvirão umas almas pouco instruídas dizer que é comodismo. Muito provavelmente até vocês um dia já confundiram as duas coisas. Também eu o cheguei a pensar.
Cada vez que ouvirem tal coisa lembrem-se, o comodismo mata a pessoa que há em nós, arrasta-nos com os dias desta vida que passa rápido demais, o comodismo é que nos bloqueia. O comodismo é acreditarmos que somos aquilo que a sociedade diz que temos de ser quando olham para o nosso corpo.
Aceitação, aceitação é tão mais. Aceitação é ganhar forças, é reconhecer quem somos e andar de cabeça erguida sem medo daquilo que alguém pode dizer para nos tentar ofender. Aceita. Aceita quem és e verás o quão forte te tornarás. O quanto determinada passas a ser para correr atrás dos teus objetivos e sonhos.
O teu corpo vai seguir a mudança, deixará de ser a tua vergonha e passará a ser o teu motor, passará a ser a imagem da tua força, das tuas escolhas independentes e seguras.
Olha ao espelho, chora, ri, trabalha, procura ajuda se precisares, ACEITA, levanta a cabeça e conquista o mundo.

Já vos disse que o meu emagrecimento foi e é sempre uma consequência desta força mental que construi? Acredito que tudo na nossa vida são consequências das nossas escolhas.
E viver, sentir-me feliz todos os dias foi a minha.

E queria dizer-vos uma coisa, eu por aqui falo do meu corpo gordo, mas não se fiquem pelo óbvio, acima de tudo combato o preconceito. Isso, o preconceito. Todas as vitimas passam um dia pela aceitação em busca da reconstrução do seu eu. Todas. Pensem nisso.

4 comentários:

  1. Excelente reflexão, Ana. Fui ver esse filme ontem e também fiquei "abananada" - acabei de escrever um post sobre isso também, embora não com a mesma perspectiva que tu. E o filme - e a história - são maravilhosos. Faz-nos tanta falta aceitar a mudança. Felizmente acho que o paradigma tem mudado. Espero que não seja uma moda passageira.

    Jiji

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    1. É como dizes Joana, este filme é para quem não se quer ficar pelo óbvio da imagem. É para quem quer viajar no tempo, questionar comportamentos e lutar por mudanças. Foi sem dúvida para mim um dos melhores filmes que vi ultimamente :)

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  2. Aceitar o que somos e como somos, só quando me "percebo", me encontro em mim e aprendo a amar-me estou pronta para mudar. Tão verdade, Ana . Tão eu também!
    Abraço. Apertado.

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    1. É essa a essência. Para mudar é preciso mesmo aceitar quem realmente somos e tenho a certeza que se fossemos todos conscientes disso seriamos todos mais felizes <3
      Um enorme e forte abraço :)***

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